Por Priscila Delvecchio Aoad
Fonoaudióloga e Neuropsicopedagoga

Uma das perguntas que mais escuto das famílias é: “Meu filho ainda não fala… será que é normal?”

Antes de qualquer coisa, quero tranquilizar você: cada criança tem seu ritmo. Algumas falam mais cedo, outras demoram um pouco mais. Mas também é importante dizer com carinho e responsabilidade: nem todo atraso deve ser apenas “esperado passar”.

A fala faz parte do desenvolvimento da criança, assim como andar, brincar, olhar, interagir e aprender. Por isso, quando a fala demora para aparecer, precisamos observar o conjunto: a criança entende o que falamos? Ela aponta? Olha quando é chamada? Tenta se comunicar de alguma forma?

A Sociedade Brasileira de Pediatria explica que o atraso de fala acontece quando a criança apresenta desenvolvimento da fala abaixo do esperado para sua idade, com vocabulário ou habilidades de linguagem menores do que o habitual.

Primeiro: fala e linguagem não são exatamente a mesma coisa

De forma bem simples:

Fala é como a criança produz os sons e palavras.

Linguagem é como ela compreende e usa a comunicação: entender ordens, apontar, nomear, pedir, responder, brincar, contar algo e interagir.

Às vezes a criança fala pouco, mas entende bem, aponta, se comunica e interage. Em outros casos, além de falar pouco, ela também parece não compreender bem, não responde ao nome ou não demonstra intenção de se comunicar. Essa diferença é muito importante na avaliação.

Quais sinais merecem atenção?

Alguns sinais não significam, sozinhos, um diagnóstico. Mas eles mostram que vale procurar uma avaliação.

Observe com mais cuidado quando a criança:

  • não balbucia ou faz poucos sons;
  • não responde bem ao nome;
  • não aponta para pedir ou mostrar algo;
  • não dá tchau, não manda beijo ou usa poucos gestos;
  • não fala palavras com intenção por volta de 18 meses;
  • não junta duas palavras depois dos 2 anos;
  • fala muito pouco ou de forma difícil de entender;
  • parece não compreender ordens simples;
  • perde palavras ou habilidades que já tinha;
  • evita olhar, não compartilha interesses ou brinca de forma muito repetitiva.

O CDC considera esperado que, por volta de 18 meses, a criança tente falar três ou mais palavras além de “mamãe” e “papai” e consiga seguir uma ordem simples sem gesto. Aos 30 meses, espera-se que diga cerca de 50 palavras e junte duas ou mais palavras, como “cachorro corre”.

“Mas o irmão falou tarde também…”

Essa é uma frase muito comum. E sim, histórico familiar pode aparecer em algumas crianças que falam mais tarde. Mas isso não deve ser motivo para ignorar os sinais.

Hoje sabemos que os chamados late talkers, ou crianças que demoram mais para falar, são relativamente comuns. A ASHA, associação americana de fala, linguagem e audição, estima que a emergência tardia da linguagem em crianças de 2 anos fique em torno de 10% a 20%.

Muitas crianças evoluem bem, principalmente quando recebem estímulo adequado. Mas algumas precisam de acompanhamento para evitar dificuldades futuras na comunicação, socialização e aprendizagem.

Quando procurar ajuda?

Eu costumo orientar os pais assim: se você está preocupado, já é motivo para investigar.

Não precisa esperar a criança completar 3 ou 4 anos para buscar orientação. O ideal é avaliar cedo, porque quanto antes entendemos o que está acontecendo, mais cedo conseguimos ajudar.

Segundo a American Family Physician, crianças com suspeita de atraso de fala e linguagem devem ser encaminhadas para avaliação com fonoaudiólogo e também para avaliação auditiva, quando necessário. A mesma fonte reforça que, quando há alteração no desenvolvimento da fala e linguagem, o encaminhamento imediato é preferível a apenas “esperar para ver”.

A audição merece atenção especial. Mesmo perdas auditivas leves ou otites frequentes podem interferir no desenvolvimento da fala.

E quando pensar em algo além do atraso de fala?

Em alguns casos, o atraso de fala pode vir junto com outros sinais do desenvolvimento. Por exemplo: pouca resposta ao nome, pouco contato visual, ausência de gestos, pouco interesse em compartilhar brincadeiras ou perda de habilidades.

O CDC cita como sinais de atenção para o transtorno do espectro autista: não responder ao nome por volta dos 9 meses, usar poucos gestos aos 12 meses e não apontar para mostrar algo interessante aos 18 meses.

Isso não quer dizer que toda criança com atraso de fala tenha autismo. Mas quer dizer que precisamos olhar para a comunicação como um todo — fala, olhar, gestos, brincadeira, compreensão e interação.

Como os pais podem ajudar em casa?

  • Converse durante a rotina. Nomeie o que vocês estão fazendo: “vamos tomar banho”, “olha o sapato”, “a bola caiu”.
  • Leia livros com figuras, mesmo que a criança ainda não fale. Aponte, nomeie e espere a reação dela.
  • Brinque no nível da criança. Entre na brincadeira, imite sons, faça pausas e dê oportunidade para ela tentar responder.
  • Expanda o que ela fala. Se ela diz “bola”, você pode dizer: “isso, a bola caiu”.
  • Evite transformar tudo em cobrança. Em vez de repetir “fala, fala, fala”, crie situações prazerosas de comunicação.
  • Reduza o excesso de telas. Criança pequena aprende melhor com interação real: olho no olho, conversa, brincadeira e troca.

O Ministério da Saúde também reforça a importância de conversar, brincar, cantar, usar livros e estimular a criança nas fases iniciais do desenvolvimento.

Um recado final para as famílias

Atraso de fala não é culpa dos pais. Também não é motivo para desespero. Mas é um sinal que merece ser observado com carinho e responsabilidade.

Na dúvida, procure avaliação. A fonoaudiologia ajuda a entender como está a comunicação, fala e linguagem da criança. A neuropsicopedagogia contribui olhando para o desenvolvimento, a aprendizagem, a atenção, o brincar e os impactos desse processo na rotina da criança.

Quanto mais cedo a criança recebe o apoio adequado, maiores são as chances de desenvolver sua comunicação com segurança, autonomia e confiança.

Observar cedo não é rotular. É cuidar.

Este conteúdo é educativo e não substitui uma avaliação individualizada.

Referências